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O mesmo, pra sempre

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Não importa o quanto eu ache que mudei. No final, continuo sempre pensando basicamente as mesmas coisas, defendendo as mesmas ideias, querendo corroborar com os mesmos valores e fingindo que sofri grandes mudanças ao longo da vida. A gente aprende muito pouco a ser diferente. Agir contra si próprio parece contraproducente, porque a vida nos ensina (de alguma forma que não sei explicar) que para viver é preciso regularidade e previsibilidade. Ninguém consegue suportar ser outro alguém e, por isso, lá no fundo, gostaríamos apenas de ser quem já somos. Aprendendo coisas novas, tendo novas experiências, mas ainda assim… sendo os mesmos.

Reimaginando o tempo

A força do tempo sobre a gente faz com que, muitas vezes, esqueçamos que as coisas se dão em um processo cumulativo. Nada acontece de um momento para outro, mas cada coisa segue um ritmo de transformações que se finaliza em um ponto que consideramos como o final. Quando nascemos começamos a morrer, perdendo aos poucos a vitalidade, o senso de descoberta, a ingenuidade do aprender. Viver é encaminhar-se para o inesperado e para a possibilidade de nos perdermos em meio a tudo. Mas tem um beleza mesmo nesse caminho atropelado que é a sucessão do tempo. Se as coisas se constroem continuamente, estamos sempre em movimento, criando, nos transformando e deixando de ser o que éramos antes. Um destino terrível seria simplesmente existir, com propósito definido e tempo determinando. Ser essa incoerência e surpresa é o que dá à nossa vida esse espaço de esperança que nos permite reimaginar nosso próprio lugar no mundo. Aceitar esse acaso é o que dá sentido aos dias.

O mundo é pequeno pra caramba

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Estou planejando uma viagem e, também por conta disso, comecei a seguir alguns perfis no Instagram relacionados ao tema (ou de pessoas que, nesse momento, estão documentando suas viagens). Como não poderia deixar de ser, comecei a ser bombardeado com conteúdo de viagem do tipo mais diverso: venda de malas, seguros, tickets para passeios, perfis focados em “experiência” de turismo etc. Daí lembrei que li, faz já um tempo, um  texto da Susan Sontag  em que ela discutia a relação entre o avanço das câmeras fotográficas e a invenção do turismo. Pode ser estranho pensar sobre isso agora, mas o turismo é, de fato, uma invenção do século XX. Não que o desejo de conhecer o mundo seja novo. Goethe fez enorme sucesso com seus  diários de viagem para a Itália  justamente porque essa vontade, de conhecer o que é de fora, já existia. Também  Montaigne dedica inúmeros ensaios ao tema da viagens , ou ao desejo de fazê-las. No entanto, por muito tempo, viajar era coisa para pou...

Nada existe

Inventamos ciclos para lidar melhor com o fato de que a realidade é caótica e imprevisível. Como somos obcecados por ordem, queremos acreditar que a vida cotidiana deveria seguir determinados propósitos ou caminhos. Mas as coisas acontecem apenas por acontecer. Nada  tem  que ser assim, ou de qualquer outro jeito. O terrível, no entanto, é que é difícil lutar contra o desejo de identificar um propósito para cada ação, passo ou respiro nosso. Infelizmente, nada disso existe.

O som da rua

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Eu moro em um prédio que fica colado em uma avenida. Acordo muito cedo todo dia e fico observando o som crescendo, os carros, ônibus, pássaros, as pessoas conversando passando pela calçada, fazendo exercício, indo pro supermercado. E chega um momento em que tudo é tão intenso, e tão constante, que já é um som aqui de dentro, que faz parte da sala. Fazer yoga, escrever, planejar minhas aulas ou escutar música, são atividades que precisam se conciliar com tudo o que acontece lá fora. Esse aqui é o som da rua em um sábado (quando tudo está um pouco mais calmo), às 18h: Marcos Ramon  ·  O som da rua No áudio acima eu saio do quarto e vou para a sala, e todo o som da rua toma conta do quase silêncio de antes. Os carros e motos na rua, as crianças brincando, uma pessoa jogando basquete. É muito. Tudo acontecendo, crescendo. E na maior parte do tempo eu nem percebo. John Cage, falando sobre 4’33’’, disse que “o silêncio não existe”. Perto do fim da vida ele se mudou junto com Cunning...

Treino de basquete, 1995

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Essa história que conto aqui aconteceu quase assim, mas não exatamente. Mudei os nomes e os detalhes. No mais, bem que poderia ter sido. Sábado à tarde. Fui ao supermercado comprar laranjas, tangerina, melão, pão, presunto e queijo. Tirando o melão, que estava caro, comprei tudo da lista e estava voltando pra casa, quando uma pessoa que andava na minha frente parou e disse: – Ei, cara. Tudo bem? Posso te fazer uma pergunta? – Claro. – Você jogou basquete no Marista? – Nossa. Sim, você estudou lá também? (E agora, não lembro dele)  – Estudei. Eu jogava na mesma época. – Puxa, desculpa. Não tô lembrando de ti. (Acho que é melhor falar logo a verdade) – Sem problema. Faz tanto tempo, né? E eu era de uma turma antes da sua. Imaginei que você não ia lembrar mesmo. Lembra do Leonardo? – Leonardo? – É, ele jogava contigo. Era da tua turma. A gente chamava ele de "perninha"; corria engraçado. – Acho que lembro sim. (Meu Deus, Leonardo?) – Tu ainda usa cabelo comprido. Tá igualzinho. ...

A presunção moral

Viver em sociedade implica, necessariamente, em aceitar o confronto com os outros. Tem que ser desse jeito e não pode ser de outro porque não existe vida sem conflito — o que não significa que a gente precise estar em constante estado de violência ou agressão. Por mais que pareça, a vida no confronto é o que nos faz avançar e adotar uma postura de transformação (nossa e do mundo). Eu sei que as pessoas às vezes dizem que gostariam de estar em uma comunidade em que todos fossem iguais em tudo, mas a verdade é que ninguém espera realmente uma vida assim, como se fosse possível termos um pensamento único. Não é possível e nem seria vantajoso, e imagino que você também sente que é assim. No âmbito do confronto, muitas pessoas se colocam como mais capazes e moralmente superiores às outras. E é aí que eu acho que tudo descamba pro erro, porque essa presunção moral, que nos faz achar que as ideias diferentes são sinônimo de falha de caráter, deixam todo e qualquer convívio inviável. Ninguém é...